A Inversão Geracional e Disrupção nas Próximas Eleições de Cabo Verde

Por: Milton Paiva

Há momentos na história de um povo em que o curso natural das gerações se inverte. Cabo Verde aproxima-se, talvez, de um desses momentos. Nas próximas eleições, o País poderá testemunhar uma viragem simbólica e política: o posicionamento efetivo de uma nova geração, nascidos ou formados nos anos 1970s e 1980s, para um palco incomum e antecipado, disputando os mais altos cargos da República, incluindo as eleições Presidenciais.

Durante três décadas, essa geração viveu à sombra de uma elite política e diplomática dos anos 1930 e 1960s. Mas o tempo, como a maré, não espera.

“Tapados” pela geração de 1930 e 1960s, e de combatentes da pátria, nos Governos e na Diplomacia, só lhes resta ocupar espaços onde deveriam estar a posicionar-se a geração antiga, invertendo os papeis e o tempo.

Uma juventude aparentemente calada, mas irreverente e com coragem. Jovens que não se contentam em aplaudir o passado e querem escrever o futuro. Cresceram num mundo livre, global e digital, onde o poder não se mede apenas por idade ou por currículo, mas pela coragem, ousadia, novação, comunicação, mobilizando e inspirando. E muitos deles já não se revêm no tempo presente, na lentidão das estruturas nem na rigidez dos discursos e das práticas que dominam o País.

A “inversão geracional” que se desenha é mais do que um apelo á mudança de rostos, é uma revolução silenciosa de ordem de precedência e de mentalidades. Um desafio à lógica da sucessão tradicional, onde os mais velhos “autorizam” os mais novos a sonhar. Os jovens não querem ser apenas ativistas de campanha, comentadores nas redes ou “futuros líderes” num amanhã indefinido. Querem liderar hoje.

Cabo Verde precisa dessa ousadia. Precisa de candidatos que falem de futuro com a mesma paixão com que os fundadores falaram da independência e da liberdade. Que vejam a Presidência, o Governo e a Diplomacia não como o fim de um percurso político, mas como o início de uma nova etapa nacional.

O País que exporta talentos e inteligência não pode continuar a importar coragem. Chegou a hora da inversão. Chegou a hora dos jovens deixarem de ser espectadores e assumirem-se protagonistas.

A geração digital, formada na diáspora e nas ilhas, deve ousar candidatar-se, não apenas a votos, mas a ideias, a causas, a disrupções.

Cabo Verde precisa de uma nova energia: disruptiva, corajosa e inclusiva.

Porque o futuro não espera, e a história, quando se atrasa, é sempre reescrita por quem ousou chegar mais cedo.

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