Autor: Euclides Silva

  • Temos cargos políticos a mais em Cabo Verde?

    Por: Euclides Silva

    Não é com um “sim” ou “não” que se responde a esta pergunta — e muito menos com populismo. É preciso análise, comparação e responsabilidade.

    Vamos aos dados, relativamente a número de Deputados:

    Cabo Verde tem cerca de 527 mil habitantes e 72 deputados.

    Comparemos com outros pequenos Estados insulares:

    – Maurícias: ~1,3 milhões | 70 deputados

    – Comores: ~900 mil | 33 deputados

    – Barbados: ~280 mil | 30 deputados

    E com países maiores:

    – Portugal: ~10,3 milhões | 230 deputados

    – Países Baixos: ~17,5 milhões | 150 deputados

    – Brasil: ~215 milhões | 513 deputados

    – Estados Unidos: ~340 milhões | 435 deputados (Câmara)

    A conclusão é clara: a representação per capita em Cabo Verde é das mais elevadas, tanto no Parlamento como nas autarquias.

    Mas atenção: isso não significa que se possa simplesmente cortar deputados. Os nossos círculos eleitorais foram desenhados para garantir equilíbrio entre ilhas e cidadãos. Já passámos por círculos de freguesia, depois municípios, e hoje temos círculos por ilha — com exceção de Santiago.

    Se queremos falar seriamente em reduzir o número de deputados, temos de repensar os círculos eleitorais. A minha proposta?

    Um círculo nacional + um círculo para a diáspora.

    Assim, poderíamos reduzir o número de deputados para metade — sem perder representatividade.

    Porquê metade e não 50?

    Fica para o próximo post.

    Partilha, comenta, discute com respeito. A democracia constrói-se com dados, ideias e coragem.

  • A PERTINÊNCIA DO VOTO OBRIGATÓRIO

    Por: Euclides Silva

    O voto obrigatório é uma realidade em vários países, como o Brasil, a Argentina, a Bélgica, a Austrália, o Peru, o Uruguai e a Bolívia, entre outros. Em muitos outros países, este modelo tem sido objeto de debate, especialmente em contextos de baixa participação eleitoral ou de crescente desinformação política.

    Durante muito tempo, acreditei que as pessoas deveriam ser livres para participar ou não na festa da democracia. Se não encontrassem opções que correspondessem às suas expectativas, poderiam simplesmente abster-se de votar. No entanto, com o passar dos anos e com a experiência política e de terreno adquirida ao longo de mais de 15 anos de militância ativa, sou levado a reconsiderar essa posição.

    O voto obrigatório pode ser uma forma eficaz de combater a banalização e a mercantilização do processo eleitoral. Um país não pode ser governado por um presidente ou por um governo escolhido apenas por 20% da população. Tal cenário compromete a legitimidade democrática e pode gerar instabilidade institucional.

    Se optamos por um regime democrático, então todos devem participar. Todas as vozes e tendências devem estar representadas, e para isso o voto deve ser obrigatório. Esta medida contribui para:

    – Aumentar a representatividade dos eleitos, garantindo que os resultados refletem a vontade da maioria.

    – Reduzir o impacto da compra de votos, já que a obrigatoriedade dificulta a manipulação de pequenos grupos de eleitores.

    – Desmercantilizar as eleições, tornando-as menos vulneráveis a interesses económicos e mais centradas no debate político.

    – Diminuir os custos eleitorais, pois campanhas podem ser mais objetivas e menos dependentes de mobilizações dispendiosas.

    – Promover a educação cívica, ao reforçar o sentido de responsabilidade dos cidadãos perante o destino coletivo.

    Em países como a Bélgica e a Austrália, o voto obrigatório é acompanhado de sanções para quem não votar sem justificação válida — desde multas até restrições no acesso a concursos públicos ou benefícios sociais. Esta abordagem reforça a ideia de que votar não é apenas um direito, mas também um dever cívico.

    Assim, proponho que uma futura reforma do nosso sistema eleitoral considere a implementação do voto obrigatório, com mecanismos claros de justificação e penalização para os incumpridores. A democracia só se fortalece quando todos participam.

  • Romeu di Lurdis – A coragem de acreditar nos jovens!

    Romeu di Lurdis – A coragem de acreditar nos jovens!

    Mas o pior confirmou-se. E fiquei de rastos.

    Vieram-me à memória os projectos que tinhas pela frente, muitos dos quais partilhámos desde os tempos de estudante. Tu, nos últimos anos do ESAD; eu, ao lado, nos primeiros anos do ISE. Eras já nessa altura alguém que pensava à frente, com ideias claras e uma energia contagiante.

    Ficaste conhecido como compositor e intérprete, mas o teu verdadeiro talento estava na política — na capacidade de liderar, inspirar e fazer acontecer. Essa parte ficou por concretizar, embora tenhamos falado dela tantas vezes. Tinhas uma visão clara: acreditavas que os jovens não deviam ocupar papéis decorativos nem ser mão-de-obra barata na política. Acreditavas, como poucos, que os jovens têm lugar na linha da frente.

    Foi por isso que mobilizaste os teus e te lançaste num projecto novo. Sabias das dificuldades, mas acreditavas que era possível eleger autarcas e mostrar que se pode fazer política jovem, diferente, sem ser delfim de ninguém.

    Esse projecto ficou por realizar. Mas a tua coragem permanece. E será inspiração para todos os jovens que abraçam a política com o propósito de servir a comunidade, de fazer o bem — independentemente das suas crenças ideológicas.

    Romeu, partiste cedo demais. Mas deixaste um rasto de convicção, de autenticidade e de esperança. Até sempre.