Milhoes na gaveta por falta de coragem

Por: Milton Paiva

Impasses da República: Um Referendo de Iniciativa Cidadã (RICV)?

Há momentos na história de um País em que é preciso escutar o coração. E Cabo Verde tem um coração grande e expressivo.

Vivemos uma democracia amadurecida, mas muitas vezes travada por impasses politicos institucionais e pela distância entre eleitos e eleitores. Quando o diálogo político se esgota e o País parece parar em certos aspectos cruciais, é legítimo perguntar: não deveria o cidadão poder intervir diretamente, propor soluções, e até corrigir rumos?

É aqui que, em diversos Países, entra o mecanismo excepcional do Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória (RICV), uma ideia simples, mas poderosa: dar aos cabo-verdianos o direito de propor, aprovar ou revogar leis e mandatos, diretamente, dentro dos limites constitucionais e regulamentados.

Assim, devolver ao Povo soberano o poder de desbloquear impasses politicos entre os seus eleitos.

O Que Podemos Aprender com o Mundo ?

Na França, há um movimento crescente pela criação do Référendum d’Initiative Citoyenne (RIC), o referendo de iniciativa cidadã, nascido do clamor dos Gilets Jaunes, o movimento dos coletes amarelos.

Eles reivindicam que os cidadãos possam:

Propor leis (RIC legislativo);

Revogar leis injustas (RIC abrogatório);

Alterar a Constituição (RIC constitucional);

E até revogar mandatos de eleitos (RIC revocatório).

Apesar de ainda não ser lei, essa ideia está a transformar o debate político francês e a inspirar democracias pelo Mundo.

Enquanto isso, o único mecanismo existente, o Référendum d’Initiative Partagée (RIP), já é uma cedência tímida nessa direção mas exige o apoio de 1/5 dos parlamentares e 10% do eleitorado, um processo tão pesado que nunca chegou a ser usado com sucesso.

E Cabo Verde?

Cabo Verde pode, e deve, ambicionar ir mais longe.

Podemos construir um modelo próprio, equilibrado e moderno, inspirado:

Na Suíça, pela sua tradição educativa e deliberativa;

Na América Latina, pela sua coragem participativa e popular.

Assim nasceria o RICV, Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória, com três pilares fundamentais:

a) Iniciativa Popular: cidadãos propõem leis, referendos ou petições diretamente.

b) Referendo Revogatório: o povo pode revogar mandatos ou leis quando houver perda de confiança pública, com regras claras e limites constitucionais.

c) Consulta Digital: uso de plataformas seguras, transparentes e auditáveis para recolher assinaturas e votar.

Porque É Importante ?

O RICV seria um passo histórico para:

– Reforçar a soberania popular, aproximando o povo das decisões nacionais;

– Renovar a confiança nas instituições, mostrando que o poder não é propriedade das elites, mas serviço à comunidade;

– Dar nova energia à democracia, tornando-a mais viva, moderna e participativa.

Trata-se de passar de uma democracia “de voto” para uma democracia de participação contínua, onde o cidadão não apenas escolhe, mas também acompanha, propõe e fiscaliza.

Um Chamado à Ação

Cabo Verde é um exemplo de estabilidade política em África. Mas estabilidade não deve ser sinónimo de imobilismo.

Está na hora de aprofundar a democracia e reabrir o diálogo com o povo soberano.

O Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória (RICV) não é apenas uma proposta técnica. Levaria a alteração/emenda do artigo 106º da CRCV, em moldes que poderemos aprofundar em outro texto ou forum, havendo interesse.

É uma afirmação de confiança no povo cabo-verdiano, na sua maturidade política e na sua vontade de construir, com as próprias mãos, o futuro da Nação.

“Nenhum povo é pequeno quando tem voz”

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